Você provavelmente usou o Pix hoje. Talvez para pagar o café da manhã, dividir uma conta ou receber um freela. O que provavelmente não passou pela sua cabeça é que, ao fazer isso, você interagiu com uma das infraestruturas públicas digitais mais bem-sucedidas do mundo.

Isso não é exagero. Em países como os Estados Unidos e o Reino Unido, sistemas de transferência instantânea são dominados por empresas privadas. Em 2024, o Pix movimentou cerca de R$ 26,5 trilhões e foi usado por 76,4% da população. Superou cartões e dinheiro vivo no cotidiano de milhões de brasileiros.

O Pix é apenas a ponta do iceberg de um fenômeno global crescente. Países como Singapura, Índia e Estônia estão transformando sua economia por meio de sistemas de governo digital robustos. Neste artigo, exploramos o que o mundo pode ensinar ao Brasil sobre Infraestrutura Pública Digital e como essa base tecnológica serve de plataforma para o setor privado inovar.

O que é uma Infraestrutura Pública Digital?

DPIs são sistemas digitais de base, geralmente mantidos ou regulados pelo Estado, que permitem que cidadãos, empresas e governo interajam de forma eficiente, segura e inclusiva. Pense nelas como estradas, pontes e redes elétricas, mas no mundo digital.

Elas geralmente se organizam em três eixos principais: identidade digital, pagamentos e transferência de dados. Quando bem construídas, essas infraestruturas criam condições para que todo o ecossistema ao redor delas floresça.

Um panorama pelas Infraestruturas Públicas Digitais pelo mundo

Diferentes países construíram suas DPIs com abordagens distintas. O que todos têm em comum é a convicção de que infraestrutura digital é questão de política pública, e não apenas de mercado.

Singapura e o ecossistema integrado do Singpass

Singapura é amplamente reconhecida como uma das líderes globais em Infraestrutura Pública Digital (DPI), operando sob a iniciativa Smart Nation.

Diferente de outros países que focam apenas em pagamentos, Singapura construiu um ecossistema integrado que combina identidade, troca de dados e transações financeiras.

Identidade Digital: Singpass

  • O Singpass é a "âncora de confiança" de Singapura. Ele permite que os residentes acessem mais de 2.700 serviços de 800 agências governamentais e empresas privadas.
  • Utilizado por mais de 4,5 milhões de usuários, cobrindo 97% dos residentes com 15 anos ou mais.
  • Utiliza autenticação de dois fatores (2FA) e biometria (facial ou impressão digital) através de um aplicativo móvel.
  • Inclui o Sign, para assinatura digital de documentos, e o Verify, para verificação de identidade presencial.

Troca de dados: Myinfo

  • Integrado ao Singpass, o Myinfo é o serviço de compartilhamento de dados pessoais baseado em consentimento.
  • Permite que cidadãos autorizem o preenchimento automático de formulários digitais (para bancos, seguros ou serviços públicos) com dados já verificados pelo governo.
  • Elimina a necessidade de enviar documentos físicos repetidamente e reduz erros em processos de KYC (Know Your Customer) para o setor privado.
  • Permite a gestão centralizada dos dados do cidadão, com segurança e privacidade.

Pagamentos instantâneos: PayNow

  • O PayNow é o sistema de pagamento em tempo real que funciona sobre a infraestrutura FAST.
  • Permite transferências instantâneas usando apenas o número do celular, o número de identidade (NRIC/FIN) ou o número de registro da empresa (UEN).
  • Conecta bancos comerciais e operadoras de carteiras digitais (NFIs).
  • Singapura já estabeleceu links de pagamentos transfronteiriços em tempo real com países como a Índia e a Tailândia, permitindo remessas instantâneas via número de celular.

Coreia do Sul: dados e blockchain como motores de inovação

A Coreia do Sul construiu uma plataforma nacional de dados que inclui um repositório de dados públicos e privados, uma plataforma de big data e um hub de inteligência artificial.

O objetivo é garantir que os dados possam ser acessados e utilizados de forma eficiente em diferentes setores da economia — do agronegócio à saúde, da educação à mobilidade urbana.

Identidade Digital: K-DID (Blockchain-based Mobile ID)

  • A Coreia do Sul está substituindo seus sistemas de identificação tradicionais por uma identidade móvel baseada em identificação descentralizada (DID).
  • Segurança e privacidade: com o sistema descentralizado, o governo não tem acesso direto a onde e como o ID é usado, garantindo maior privacidade ao cidadão.
  • Adoção gradual: o plano é que IDs nacionais móveis estejam disponíveis para todos os cidadãos acima de 17 anos até o final de 2025.
  • Já é possível usar o celular para votar em eleições, realizar transações bancárias presenciais e acessar prédios governamentais.

Troca de Dados: MyData Korea

  • O ecossistema MyData é a espinha dorsal da soberania de dados na Coreia, permitindo que os indivíduos controlem e transfiram suas informações entre diferentes setores.
  • Totalmente implementado desde 2022, permite que usuários visualizem todas as suas informações de crédito, contas bancárias e investimentos em um único aplicativo de sua escolha.
  • Em março de 2025, o governo expandiu o framework para os setores de saúde e telecomunicações, com planos para incluir o setor de energia em 2026.
  • Mais de 165 milhões de assinaturas de serviços já foram registradas, facilitando o gerenciamento financeiro personalizado e o score de crédito.

Pagamentos e finanças: Open Banking

  • A Coreia opera um sistema de Open Banking robusto que serve como infraestrutura de pagamento em tempo real.
  • Interoperabilidade total: permite que clientes usem um único aplicativo (como Toss, KakaoPay ou apps de bancos tradicionais) para gerenciar todas as suas contas em diferentes instituições e fazer transferências instantâneas.
  • As taxas para fintechs acessarem a rede bancária foram reduzidas a 1/10 do valor original, incentivando a inovação e a competição no setor.

Plataforma de serviços: Government 24

  • O Government 24 é o portal unificado que integra cerca de 1.300 serviços públicos diferentes.
  • O cidadão pode solicitar documentos, rastrear benefícios e resolver pendências fiscais em um único local, eliminando a burocracia entre ministérios.

Índia e o India Stack: a maior referência mundial em DPI

A Índia é a referência global em Infraestrutura Pública Digital (DPI) com o seu ecossistema conhecido como India Stack. A base desse sistema é o Aadhaar, a maior identidade digital biométrica do mundo, que fornece uma prova de identidade única para mais de 1,3 bilhão de pessoas.

Sobre essa fundação, opera a Unified Payments Interface (UPI), uma camada de pagamento instantâneo e interoperável que revolucionou a economia ao permitir transações gratuitas via QR Code e celular, conectando centenas de bancos e fintechs em uma única rede.

O sucesso do modelo indiano é tão expressivo que o país agora exporta essas tecnologias para outras nações através da iniciativa Global Public Digital Infrastructure Repository.

💡 Identidade digital como infraestrutura: lições da Índia para o mercado brasileiro

Estônia e o X-Road: a espinha dorsal da interoperabilidade

No final dos anos 1990, a Estônia tinha um problema clássico: bancos de dados governamentais que não se falavam. A resposta foi o X-Road, uma plataforma de troca de dados que conecta sistemas públicos e privados de forma segura.

Hoje, o modelo é referência mundial em interoperabilidade e foi exportado para outros países como Finlândia e Ucrânia, com governança compartilhada pelo Instituto Nórdico para Soluções de Interoperabilidade (NIIS).

Nigéria: pagamentos em tempo real

Lançado em 2012, o NIBSS Instant Payment (NIP) é a principal infraestrutura de pagamentos digitais da Nigéria. Opera 24 horas por dia, 7 dias por semana, pertence ao Banco Central nigeriano e a bancos licenciados no país.

Em 2023, 13% da população, em um país de 224 milhões de pessoas, usou a plataforma para transações, um crescimento de quase 77% em relação a 2020. Um avanço expressivo em um contexto de alta exclusão financeira.

DPIs diferentes, resultados semelhantes: os padrões de sucesso

Apesar das particularidades, é possível identificar padrões nos países que têm obtido mais sucesso com suas DPIs:

  • Governança clara: seja por meio de bancos centrais, agências especializadas ou institutos compartilhados, os casos de sucesso têm um órgão responsável e com autoridade para manter e evoluir a infraestrutura.
  • Interoperabilidade por design: as infraestruturas não foram construídas para um sistema específico, mas para conectar múltiplos atores: bancos, fintechs, órgãos públicos, empresas privadas.
  • Inclusão como objetivo, não como consequência: tanto o Pix quanto o NIP nigeriano, por exemplo, foram concebidos para alcançar populações fora do sistema financeiro tradicional.
  • Abertura ao setor privado: nenhum desses países construiu DPIs para excluir empresas privadas. A infraestrutura pública cria o chão sobre o qual o mercado pode inovar.

4 lições estratégicas de Infraestrutura Digital para o mercado brasileiro

O Brasil já tem avanços notáveis, mas há aprendizados importantes dos casos internacionais que merecem atenção, especialmente para empresas privadas que atuam ou pretendem atuar sobre essas infraestruturas.

Identidade digital é o próximo grande campo

Todos os países citados neste artigo têm em comum um pilar robusto de identidade digital. No Brasil, esse é um espaço em consolidação.

Empresas que entenderem cedo a importância de integrar ou apoiar infraestruturas de identificação digital em seus processos vão sair na frente em eficiência, segurança e experiência do usuário.

Infraestrutura pública não é concorrência, é base

Um erro comum é enxergar DPIs como ameaças ao mercado privado. A experiência global mostra o oposto: o Pix não eliminou fintechs, ajudou a criar dezenas delas. O X-Road estoniano não substitui sistemas privados, os conecta.

Empresas que reconhecem a infraestrutura pública como plataforma de inovação, e não como ameaça, encontram nela oportunidades que simplesmente não existiriam sem ela.

Interoperabilidade reduz custos para todos

Sistemas que não se comunicam criam atrito, retrabalho e custos operacionais desnecessários.

No contexto brasileiro, empresas que já operam com APIs abertas e aderentes a padrões nacionais estão mais bem posicionadas para integrações futuras, seja com outros negócios, com o governo ou com novas infraestruturas que ainda vão surgir.

O diálogo público-privado define o ritmo da transformação

Em todos os países analisados, o sucesso das DPIs dependeu de uma relação ativa entre Estado e mercado.

Não apenas de adesão técnica, mas de uma compreensão compartilhada sobre por que essas infraestruturas existem e o que elas tornam possível. Esse diálogo precisa começar antes da tecnologia estar pronta e se manter depois.

DPIs bem construídas não são projetos de governo, são projetos de país

O Brasil já tem um dos sistemas de pagamentos instantâneos mais avançados do planeta. O movimento de Open Finance avança. A identidade digital ganha maturidade. O contexto é promissor.

Mas o que os casos acima mostram é que boas infraestruturas não se sustentam sozinhas. Elas precisam de empresas privadas que as entendam, as integrem e as usem como base para criar soluções melhores. E precisam de uma conversa permanente entre quem as constrói e quem opera sobre elas.

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